sábado, 8 de março de 2014

Lado B - José Zignani


perfil publicado na Revista Acontece, de Caxias do Sul, em fevereiro de 2014. 


Por Valquíria Vita


 Além de fotos de mais de 600 casamentos, o fotógrafo José Zignani coleciona memórias das expressões da mais pura felicidade que é demonstrada nesse grande dia – e se envolve tanto com os clientes que acaba se tornando amigo deles


Todos conhecem parte dos dizeres que materializam a promessa do amor que deve durar até que a morte separe duas pessoas. A diferença é que José Zignani, 37, já ouviu a frase “Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença” mais de 600 vezes.
O juramento não foi apenas por ouvido por ele, mas retratado por suas câmeras todas essas vezes. Zignani, um dos mais tradicionais fotógrafos de casamento de Caxias do Sul, entra em 2014 com a agenda cheia. E pretende, por ainda muitos anos, seguir registrando os preciosos momentos daquele que é o dia mais marcante da vida de muitas pessoas.
Um ano tem cerca de 52 sábados e Zignani fotografa casamentos em 40 deles. “Eu boto terno todo final de semana”, brinca. O ritmo acelerado não o deixa cansado – pelo contrário. O fotógrafo, um perfeccionista ao extremo, como ele mesmo se define, vê em cada casamento uma chance de se superar em suas fotografias (ele confessa que já deu álbuns prontos com suas fotos sem cobrar nada por eles, apenas porque não ficou satisfeito com o resultado).
Se por um lado os noivos saem ganhando com o trabalho de um profissional tão exigente com ele mesmo, Zignani ganha cada vez mais clientes, que já estão fechando contratos com a Zignani Fotografia para sábados do ano de 2015. 
É preciso muito amor para fotografar tanto casamento. Segundo ele, um fotógrafo de casamento é responsável por clicar momentos da mais pura felicidade dos casais que se planejaram durante anos para aquele dia. “O que mais me deixa feliz é justamente ver a felicidade de todos”, diz. E é por isso, que enquanto noivos e convidados choram de emoção, Zignani sorri. “Eu não sou de chorar, eu sorrio”, diz, lembrando um episódio, no entanto, que quase o levou às lágrimas – no dia em que fotografou o casamento em que a noiva tinha se recuperado de um câncer. “Eu estava lá, no altar, e sabia de tudo o que eles tinham passado, sabia que ele tinha ficado do lado dela durante a doença. Eu vi ali que eles realmente se amavam. Foi um momento muito bacana, em que eu senti que aquilo era realmente verdadeiro”, conta. 
O motivo pelo qual Zignani se envolve tanto com as histórias de seus clientes é que o seu trabalho com eles inicia muito antes do dia do casamento. Quando ele está no altar, não é um completo desconhecido para o casal. 
Além disso, o contato também não termina na igreja. É comum para o fotógrafo, por exemplo, anos mais tarde, fotografar a mesma noiva, dessa vez já esperando bebê. O mesmo casal também o procura, tempos depois, para retratar a família formada. “Não são clientes passageiros, criamos vínculos. A gente leva para a vida essas amizades”, diz Zignani, que há pouco tempo recebeu uma notificação em seu Facebook de uma cliente que postou fotos do casamento clicado por ele há dez anos. 
Zignani está nesse ramo há 12 anos. É o filho mais novo de Ana Lourdes e Emilio, que era caminhoneiro (mas faleceu quando Zignani tinha apenas quatro anos). Como todo menino, diz ele, queria seguir a profissão do pai. Foi só por causa das circunstâncias que ele descobriu-se interessado na fotografia. 
Era 1997 e Zignani era um jovem de 20 anos que atendia no balcão na Tomazoni, antiga empresa de fotografia de Caxias. “Na época, eu não tinha a menor pretensão de ser fotógrafo”. 
A função dele era atender os profissionais de fotografia que, na era pré-internet, procuravam a loja para revelar filmes e comprar equipamentos. Foi aí que Zignani começou a ter contato com fotojornalistas como Jefferson Botega  e Ricardo Wolffenbuttel – ambos hoje seus amigos, além de inspirações profissionais. No balcão da Tomazoni, Zignani começou a descobrir o maravilhoso mundo da fotografia, e a pensá-la como uma possibilidade de negócio, sem saber que anos mais tarde seria referência nessa área. “Mesmo sem a pretensão de ganhar muito dinheiro, resolvi arriscar”.
Como ainda não existia curso de fotografia da Universidade de Caxias do Sul, a saída encontrada por Zignani para aprender a fotografar foi ser autodidata. Além de mergulhar nos livros de fotografia, ele inspirava-se no trabalho de fotógrafos renomados. Tempos depois, iniciou como muitos fotógrafos iniciam a carreira: fotografando festas à noite. “No começo era eu e minha câmera”, lembra Zignani, que usava uma máquina analógica comprada em Porto Alegre – durante três anos ele fotografou com filme. “Eu vivi a revolução”. 
Depois da noite, vieram oportunidades para trabalhar em outros eventos.  Primeiro, Zignani foi contratado para fotografar decorações e dedicava seu tempo a fotografar flores. Foi em meados de 2004 que ele entrou para a sociedade caxiense, quando foi contratado pelo Recreio da Juventude para fazer fotos do baile de debutantes. Na época, conta Zignani, não havia muitos fotógrafos na cidade, e os que existiam era mais velhos – e foi aí que ele se destacou, iniciando um trabalho fotográfico diferente do que os bailes de debutante estavam acostumados a ver. 
O início, lógico, não foi fácil. Fotografar um baile de debutantes era uma grande responsabilidade, ainda mais para um fotógrafo que ainda não tinha muitos anos de experiência na bagagem. “Dois meses antes do baile eu já não dormi”, conta. Com uma nova proposta de fotografar, Zignani fez sucesso entre as jovens debutantes do clube, por mais de seis anos. 
Esse tempo foi suficiente para aumentar o leque de contatos do fotógrafo, e Zignani finalmente começou a fotografar casamentos. Desde 2007, ano que ele diz que sua carreira sofreu um boom, o fotógrafo não parou mais – e hoje chega aos 40 sábados por ano trabalhados. Claro que, apesar do retorno, tanto financeiro quanto pessoal que tanto trabalho trouxe a ele, surgiram também as partes negativas, assim como qualquer outra profissão. Para Zignani, o lado ruim é que nos sábados, por exemplo, ele nunca está com a família. E, nos domingos, quase sempre cansado. “Mas tem um lado muito bom, que é o que posso pegar meu filho na escolinha às cinco da tarde e ir para o parque, por exemplo. Tenho esse tempo”, explica.  
 
O filho é Valentino, de quatro anos. O menino recebeu esse nome em homenagem à outra paixão de Zignani: motos (ele é dono de uma Harley Davidson Iron 883). Valentino Rossi é um famoso profissional de motociclismo italiano. Valentino, filho de Zignani, ainda é muito jovem para se interessar por motos. Mas não por fotografia. No auge de seus quatro anos, o menino já é dono de uma câmera Cannon G10. “Ele é louco por fotografia. Faz pose para tudo”, conta o pai, orgulhoso. 
O pequeno é filho de Zignani com Márcia Canali. Os dois estão casados há quatro anos, e hoje, Márcia trabalha com ele no estúdio de fotografia, sendo responsável pela parte financeira e administrativa do negócio. Eles se conheceram há 12 anos, quando Zignani fotografava uma festa infantil para uma tia de Márcia. Talvez justamente porque Márcia o conheceu enquanto ele trabalhava seja o motivo pelo qual ela entende tão bem a rotina atribulada de um fotógrafo.
Ironicamente, os dois nunca se casaram na igreja – Valentino surgiu antes que eles formalizassem a união. Mas, segundo Zignani, Márcia, assim como a maioria das mulheres, sonha com um casamento tradicional. Quando esse dia chegar, diferente da maioria dos casamentos que fotografa, Zignani diz que eles pretendem realizar uma cerimônia pequena e com poucos convidados. “Faço festas grandes, mas não sou de festas”. 
O fotógrafo que fica até as 4h manhã trabalhando nos casamentos (mas que já ficou até as 7h), confessa que é muito difícil tirá-lo de casa e arrastá-lo para uma festa nas suas noites de folga. “De tanto estar em festas, quando tenho tempo livre gosto de ficar parado. Eu vivo a festa dos outros. Gosto de ficar em casa”.
Viagens, no entanto, já fazem parte de outra história. Zignani gosta muito de fazê-las e, na lista dos lugares visitados nos últimos meses estão Londres, Aruba, Cancun e Argentina – em todas as vezes ele voou a convite dos noivos para fotografar. 
Embora a equipe que o acompanha conte com cinco profissionais e mais dois freelancers, Zignani diz que a maioria das fotos de seus casamentos são feitas por ele mesmo. “Eu procuro fazer tudo”, diz, deixando claro que é muito criterioso com seu trabalho, que, além da fotografia, envolve a produção de livros de casamento com o material. 
A agenda cheia que foi se acumulando, especialmente nos últimos anos, fez com que ele desistisse, ao menos por enquanto, do sonho de se mudar para Florianópolis e lá abrir um outro estúdio de fotografia de casamento. Seria muito difícil, conforme ele, começar do zero em um novo local, onde seu trabalho não é conhecido como é em Caxias. Mas do futuro ninguém sabe. Afinal, ninguém imaginava que aquele jovem que atendia na Tomazoni viria a se tornar um fotógrafo renomado na cidade. Quem sabe, portanto, o que os próximos anos reservam?

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

whiteness.




You cannot appreciate Summer unless you are in the middle of Winter

Voce não consegue valorizar o verão a não ser que esteja no meio do inverno




ps. reconsiderando mudar o nome desse blog pra 2 mil dias de inverno.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

the light.

"The smallest thing can change your life.
In the blink of an eye, something happens when you least expect it, and sets you in a course that you never planned. Into a future you never imagined.
Where will it take you?
That’s the journey of our lives, our search for the light.
But sometimes, finding the light means you must pass through the deepest darkness".


Because we never know what life is saving for you. Today, I’m thankful for all the events of 2013 that brought me back to this country :)




“Uma pequena coisa pode mudar sua vida.
Num piscar de olhos, algo acontece quando voce menos espera, e te coloca em um rumo que voce nunca planejou. Em um futuro que voce nunca imaginou.
Onde isso vai te levar?
Essa eh a jornada das nossas vidas, nossa busca pela luz.
Mas algumas vezes, ate encontrar essa luz, voce precisa passar pela sua escuridao mais profunda.”

Porque voce nunca sabe o que a vida esta reservando para voce. Hoje, eu sou grata por todos os eventos de 2013 que me trouxeram de volta aos EUA :)




sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Lado B - Jayme Paviani



          Escrever perfis é uma das paixões da minha vida. É na verdade o que me sobrou de paixão do jornalismo - paixão essa que era bem mais forte há um tempo. Sigo empolgada para escrever sobre a vida das pessoas (tanto em Pittsburg quanto em Caxias), e, como sempre quis ser escritora, pretendo levar isso adiante agora que entrei no mestrado. No futuro, espero publicar biografias. 
          Por enquanto, publico aqui uma série de perfis que deixei pronta para a Revista Acontece, aqui de Caxias. O desse mês é do professor Jayme Paviani. Nos próximos meses, publico o de um fotógrafo que já clicou mais de 600 casamentos e o de uma voluntária de um asilo que trabalha de graça há 25 anos. Prometo que são pessoas sensacionais e que não irão se arrepender dessas leituras :)





perfil publicado na Revista Acontece, de Caxias do Sul, em fevereiro de 2014. 

Por Valquíria Vita
Autor de mais de 40 livros e professor da UCS por quase cinco décadas, Paviani nutre uma paixão inesgotável por filosofia e pela arte de ensinar. Por trás do escritor, filósofo e professor envolvido em inúmeros projetos de pesquisas e livros, está um avô orgulhoso, que é também apreciador de boa música, futebol, romances policiais e gatos



Na saída de uma aula no bloco E da Universidade de Caxias do Sul, numa tarde do final de novembro, um dos alunos apressa o passo para alcançar o professor Jayme Paviani. Tímido, lhe entrega um presente e uma frase quase ensaiada: "Em agradecimento aos encontros semanais das nossas aulas nesse semestre", diz, acrescentando ao apontar para o presente: "Sei que o senhor gosta e tem até um poema sobre isso". O professor, igualmente tímido, recebe o presente (uma garrafa de vinho) e responde com um obrigado, um sorriso e um aperto de mão, e segue para sua sala. Paviani não é daqueles escritores que gostam de receber muitos elogios – do que quer que sejam – apesar de ter um currículo que se destaca na academia: publicou mais de 40 livros e tem 48 anos de experiência em sala de aula, onde orientou mais de 60 teses de mestrado e doutorado.
O interessante é que quem escuta o nome do professor do mestrado em Educação da UCS rapidamente o relaciona à filosofia – tema central de seus estudos desde que era um jovem aluno do seminário. O lado que poucas pessoas conhecem é que o escritor e professor é também um avô muito coruja, que consegue manejar o tempo que dedica a estudar e ensinar Platão aos universitários, com as horas que passa com os dois netos pequenos, Enzo, de cinco anos, e Martina, de 10, que vivem na casa ao lado da dele.
Uma foto das duas crianças abraçadas e sorrindo está emoldurada em uma das mesas da sala de pesquisa de Paviani, na UCS, para que ele possa olhar para elas todos os dias – até mesmo nos mais apressados, como naquela terça-feira em que concedeu essa entrevista, onde teve de encontrar tempo entre uma aula e uma palestra que ministraria na UCS uma hora mais tarde. Naquela tarde, ele estava sozinho na sala – a outra professora que ocupa o espaço de pesquisa e tem seu nome exposto na porta junto com o dele é sua esposa, a professora do mestrado em Educação da UCS, Neires Soldatelli Paviani.
Foi no espaço acadêmico, que os dois dividem até hoje, que Jayme e Neires se conheceram, há 48 anos. O que levou Paviani a ingressar no ambiente da universidade foi sua formação inicial. Tudo começou em Flores da Cunha, onde o escritor nasceu, em 4 de junho de 1940. Filho de Esmeraldina e Raymundo, Paviani não quis seguir os passos do pai, famoso no meio político da região – Raymundo foi vereador e prefeito de Flores da Cunha. "Já recebi várias propostas, mas nunca me envolvi com política", diz ele.
Ainda jovem, Paviani veio estudar no seminário em Caxias do Sul. "Desde os 11 sou caxiense", diz o escritor, que recebeu o título de Cidadão Caxiense em 1999. Foi no ambiente do seminário onde Paviani ainda jovem teve os primeiros contatos com assuntos como latim e filosofia. "Foi aí que eu comecei a escrever poemas. Naquelas manhãs lindas de outono eu lia poesias de Horácio e Virgílio. Descobri a poesia e nunca mais abandonei", conta. O seu primeiro livro de poemas, Matrícula, escrito em conjunto com outros autores, foi lançado em 1967. Hoje, o autor já coleciona oito livros próprios de poemas.
A escolha pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na época oferecida em Viamão (que depois se tornou Universidade de Caxias do Sul), veio naturalmente depois do seminário. Após a graduação em Filosofia, Paviani estava apto para começar a lecionar, exercício que iniciou em março de 1965. Ao mesmo tempo, ele ingressou em uma segunda graduação, dessa vez em Direito. Alguns anos mais tarde, em 1972, foi um dos primeiros professores da UCS a ingressar no mestrado – na época, como ainda não existia em Filosofia, ele optou pelo mestrado em Educação. "Foram as contingências que me levaram a todos esses caminhos", diz. Depois do mestrado, ele fez doutorado em Letras e concluiu um pós doutorado em Pádova na Itália, onde especializou-se em Filosofia Grega.
Por causa da formação em quatro áreas diferentes (Filosofia, Direito, Educação e Letras) Paviani faz questão de ressaltar a interdiscilinaridade de seu trabalho. "Eu sempre lecionei filosofia para diversos outros cursos. A filosofia que eu estudo é voltada para outras áreas do conhecimento", explica.

O professor já perdeu as contas de quantas conferências já participou em outras universidades. Só no último semestre de 2013 já havia recebido convite para 20. Optou por participar de "apenas" dez. De todas as que já palestrou, lembra especialmente de uma em Nova Iorque, em 2000, onde falou sobre globalização para 2 mil pessoas – o tamanho do público não o intimidou, diz ele. "Fico mais nervoso para falar para 5, 6 pessoas", conta ele, que, na época, palestrou em italiano – Paviani também entende inglês, espanhol e francês.
Ao longo da trajetória, foram muitos os convites para dar aulas em universidades em outras cidades – fora os 19 anos que coordenou mestrado e doutorado em Filosofia da PUC/RS, em Porto Alegre (mas que manteve os laços em Caxias), Paviani nunca aceitou nenhum outro convite para sair da cidade que o acolheu desde os 11 anos de idade. "Quando eu era ainda jovem, li uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: ‘A pessoa realmente vence na vida, quando ela vence na própria terra’".
Neires, sua esposa, também nunca aceitou convites para sair de Caxias. Os dois se conheceram em 1965, na Faculdade de Filosofia, quando Paviani era professor de Filosofia e Neires, aluna do curso de Letras. Casaram-se três anos depois e tiveram dois filhos: Leonardo Soldatelli Paviani, que hoje é dentista e violinista da Orquestra Sinfônica da UCS, e Monica Soldatelli Paviani, que é psiquiatra.
Hoje, além de ser professor e estar envolvido em projetos de pesquisa do mestrado de Filosofia e de Educação na UCS, Paviani dedica seu tempo para concluir alguns livros, escrever para o jornal Pioneiro e para a revista Bom Vivant, contribuir para obras de outros autores e participar de palestras e conferências. Quando sobra um tempo – o que é raro – ele diz que cultiva três hobbies. O primeiro deles é acompanhar futebol – apenas acompanhar e não torcer, como ele mesmo explica. Paviani faz questão de assistir os jogos de Juventude e Inter, mas também não perde as partidas do Grêmio, time do coração do neto, Enzo. O segundo hobbie é ouvir música – e ele diz ser muito eclético, ouvindo desde sertaneja até erudita. "Desde que seja música boa. Apreciar música é uma coisa genial". O último hobbie envolve leitura – mas não as científicas e filosóficas, que já essas fazem parte de sua rotina. Paviani é fã de romances policiais, e diz ler até dez títulos por ano. "Só não leio mais porque não dá tempo", justifica. Os romances enchem parte das prateleiras da biblioteca de sua casa, que conta com mais de 7 mil obras.
Uma das frequentadoras assíduas da biblioteca, como ele mesmo brinca, era Greta, uma gata siamesa que faleceu há pouco tempo. Paviani e a mulher gostam tanto de gatos que já chegaram a ter mais de 10 felinos em casa de uma vez só. Com a morte de Greta, a casa hoje é ocupada por dois cachorros, um deles, recolhido da rua e acolhido pelo casal. Os dois não pensam em adotar novos gatos, já que com a rotina agitada de ambos, falta tempo para cuidar de tantos animais.
Aos 73 anos, Paviani diz que ainda não está pronto para descansar. Esse ano, ele já lançou o livro As Origens da Estética em Platão e até o final de 2013 pretende lançar mais um. Intitulado "Uma introdução à Fisolofia", a obra, apesar do título, é "um livro que só se escreve na maturidade," como explica ele. O professor também está trabalhando em mais dois livros de poemas. "Mas não tenho pressa de terminá-los. Poema é a coisa mais difícil de ser feita. O poema tem que ser bom mesmo, e não mais ou menos".
Ele diz que pretende continuar fazendo o que mais gosta: dar aulas. A atividade, segundo ele, o relaxa, já que o ambiente da universidade é rejuvenescedor. A explicação para isso, diz ele, está nos alunos – na sua maioria, jovens como aquele que no início dessa matéria lhe entregou uma garrafa de vinho em agradecimento às ótimas aulas de filosofia. A convivência com eles talvez seja exatamente a receita para a disposição do incansável Jayme Paviani: "Costumo dizer que um dos segredos da universidade é que os prédios envelhecem, os professores envelhecem, mas os alunos sempre têm 20 anos".

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A carta que a gente nunca mais abriu

Em 2010 eu e quatro amigos resolvemos escrever uma carta juntos. Na verdade, éramos em dois casais e um amigo. Combinamos de abrir a carta em janeiro de 2011, um ano depois, todos juntos, frase inclusive que foi escrita no envelope selado em que guardamos a carta. 

Nela, cada um dizia o que esperava pro futuro, tipo resoluções - na época, todos ainda na universidade devem ter desejado algo relacionado às futuras carreiras, não lembro, e não posso abrir a carta sozinha para relembrar para não descumprir o combinado 'todos juntos'. Hoje, acho que se fossemos escrever a mesma carta já desejaríamos coisas diferentes - eu sei que eu, pelo menos, faria isso. 

A carta ainda não foi aberta. Está guardada desde 2010 no fundo de uma gaveta do meu quarto de Caxias (pelo menos alguma coisa permaneceu no mesmo lugar, já que eu, por outro lado, saí de Caxias para morar em cinco casas diferentes do Kansas, depois em Porto Alegre e depois de volta pra Caxias - cansei só de lembrar).

Mas então. Depois daquele verão em Arroio do Sal em que escrevemos a carta naquela noite, nunca mais tivemos outra chance para reunir os cinco novamente. Os dois casais se separaram. Hoje, nenhum dos quatro, aliás, mora na mesma cidade do ex, e isso dificultou bastante. 

Muita coisa acabou acontecendo com todo mundo (e deus sabe quanta coisa cabe nesse 'muita') e impediu que a tal da carta fosse aberta.

Ontem, quando um desses amigos estava aqui em casa e acabou enxergando o envelope, ele lembrou que 'vamos ter que abrir essa carta agora só em 2015', porque ele sabe que não vou estar nos próximos anos. 

Mais uma vez, a leitura dela foi adiada. Mais uma vez, adiada pelos acontecimentos que ninguém previa. E quem sabe se, mesmo em 2015, isso vai ser possível?

Fiquei pensando em como todos os eventos das nossas vidas conseguem distanciar pessoas que eram muito próximas (e, ao mesmo tempo, unir outras ainda mais). 

Em como o surgimento de um problema realmente sério pode reforçar o sentido das amizades. 

E em como não podemos nunca contar com 'o ano que vem', nem o mês que vem e nem mesmo com o dia seguinte. A imprevisibilidade da vida não nos permite fazer isso. (Pena que leva um tempo até a gente perceber isso). 

E, bom, quanto à carta, talvez um dia ela seja aberta. Quem sabe, né?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Pra quem não acredita mais em saudade

                                    


     Se você já morou fora (e voltou pro mesmo lugar) talvez você consiga compreender esse texto um pouco melhor. 
     Escrevo porque vários acontecimentos dos últimos meses me deixaram pensando nessa coisa da saudade. E tudo o que aconteceu fez com que eu me tornasse uma pessoa muito mais cética. 
     Hoje digo com certeza que não acredito mais em quem diz que está com saudades de mim. Não me venham com essa palavra, porque eu não compro mais. Comprava, achava linda, essa palavra só da nossa língua. Hoje já não sou mais assim. 
      Quando eu estava morando em outro país, muita gente, muita gente mesmo, vivia me escrevendo saudades. Uns contavam os dias (juro) pra eu voltar pro Brasil, diziam que tinham sonhado que eu tinha voltado (!).. bom.. diziam all kinds of crap. 

     Quando eu voltei pra casa demorou pouco tempo pra eu perceber que é muito mais fácil escrever que a gente sente falta de alguém do que de fato demonstrar isso com ações.       

     Finalmente eu estava aqui, e, de repente, a tão falada saudade deu lugar a um monte de gente muito ocupada com as atribuições do dia a dia pra se importar com qualquer outra coisa. 
      Cheguei a essa conclusão, depois de muito quebrar a cara esse ano (inclusive depois de ter ido morar no mesmo apartamento de uma pessoa que me dizia isso todos os dias). 
      Não acredito mais no 'tô com saudade'. Quem sente saudade não percebe que quando a pessoa tá longe é bem mais fácil lembrar só das coisas boas e legais. E não se dá conta que no dia a dia a história não é assim. Quando você percebe que tem que dividir a pia, a máquina de lavar, as contas, a vida fica um pouco mais complicada do que a amizade por Skype, né? Parece óbvio, mas pra mim não era, e eu tive que entender isso do pior jeito possível. 
      'A saudade é traiçoeira', que nem disse meu amigo Rod. Até nós mesmos não conseguimos nos lembrar de todos os sufocos que passamos nos EUA. Sentimos tanta falta de lá, que só lembramos da parte boa. E com as pessoas é a mesma coisa. 'É fácil amar alguém quando esse alguém tá longe', disse o Jeferson essa semana.
     Não sei se existe solução pra isso. Também não acredito que todas as pessoas dizem saudade levianamente - só acho que algumas falam sem pensar. De qualquer forma, acredito que antes de sair escrevendo 'saudade' pra deus e o mundo que estão longe, acho mais válido primeiro pensar um pouco se a gente tá dando a devida atenção pras pessoas que estão perto. 
     



O que inspirou esse post foi um outro texto, da minha amiga também jornalista, Grazi. Aqui o link do texto dela, que cita uma ótima poesia do Mario Quintana: “O sumo bem só no ideal perdura…/Ah! Quanta vez a vida nos revela /Que “a saudade da amada criatura” / É bem melhor do que a presença dela…”